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  • Foto do escritorSilvana Santos

A rainha que se descobriu rainha


Sabe a história do rei que andava nu pelo castelo, por acreditar que estava usando uma roupa que só pessoas inteligentes viam, por que assim falou o vendedor que a vendeu. O rei não via a tal roupa, mas, se calou por medo de ser considerado desprovido de inteligência, assim como todos os seus súditos que não viam a roupa, mas não ousaram falar, pois quem quer ser taxado de tolo?

Pois bem, a história que vou contar agora envolve também um membro da realeza: A rainha. Só que ao contrário do acontecia com rei, a rainha e as pessoas ao seu redor não viam o brilho da sua coroa, apesar das pedras preciosas.

O seu esposo, o rei, também possuía uma bela coroa, e a rainha não cansava de admirá-la. E vale ressaltar, que ambos possuíam belas coroas, igualmente reluzentes e crivadas de pedras preciosas.

Só que um dia o rei e a rainha decidiram se divorciar. O rei seguiu seu caminho levando consigo sua coroa, afinal, não tinha o que se discutir, cada um possuía sua própria coroa, e aquela era dele. O que me parece muito justo.

A rainha, no entanto, se sentiu perdida e muito triste, pois pela primeira vez seu olhar estava em sua coroa e não mais na do rei. Ela se deparou com uma coroa sem brilho e desbotada. Uma coroa que certamente não teria nenhum valor, dada sua aparência de abandono e descuido.

Mas, dentro do seu peito batia um coração de rainha, em seu sangue havia a bravura de uma mulher, e ela ergueu-se de sua cama e começa a questionar sua dor: Se o rei orgulhosamente se recusou a ir sem sua coroa, como ouso a não me orgulhar da minha? Por que havia brilho na coroa do rei e na minha não tem, ou será, que em algum momento ela foi perdendo seu brilho?

A rainha pegou sua coroa e a trouxe cuidadosamente para perto de si, e com muito amor por aquela coroa que a há muito tempo a acompanhava, começou a limpar cada pedacinho com muito carinho e atenção.

E numa mistura de medo, tristeza e assombro, ela percebeu que algumas pedras estavam sem brilho por que estavam simplesmente trincadas - Mas como? Não me lembro de como isso aconteceu. – Angustiada, pensava a rainha.

Viu um espaço vazio, que denunciava que ali já abrigará uma robusta pedra, e se desesperou, pois nunca viu a tal pedra. Diante dessa descoberta, ela caiu em um pranto doído, mas que, ao mesmo renovava sua alma.

E a rainha naquele momento resolveu: Me permitirei chorar por toda uma noite, mas, ao nascer do dia, secarei minhas lágrimas, e me prepararei para ir em busca da pedra que faltante e descobrirei como as outras foram trincadas.

A busca se iniciou em seu próprio castelo e não demorou muito para ela descobrir que muitos das pessoas que a conheciam, já sabiam do brilho escondido em sua coroa, e até lamentavam por não ter dito coragem de avisá-la, mas, se defenderam: Nos ensinaram assim e foi sempre assim; Elogios, só para a coroa do rei.

Chocada e se sentindo traída pelas pessoas, consumida por uma dor dilacerante, de repente, se forma em sua mente a imagem de uma pequena princesa, com uma linda e reluzente coroa. Que menina linda! Exclamou ela. Mas, não demorou muito para ela perceber que aquela pequena criança saltitante era ela. Sentiu um aconchego no coração e começou a dançar com a pequena, se lembrou de cada passo daquela dança alegre. Porém, do nada, seu coração é tomado de uma tristeza. Sem querer, se desconectou da sua criança e a procurou desesperadamente.

Encontrou a criança em um pranto silencioso. Percebeu que coroa da triste menina já não brilhava como há um minuto atrás. Como assim? Se pergunta a Rainha: Como é possível que um sorriso, uma dança e um brilho tão intensos se acabem em tão pouco tempo?

A rainha senta ao lado da sua garotinha, a criança se aninha do seu lado, e como um flasch sua mente se enche de lembranças, pega sua coroa e conclui: Foi nesse dia que várias pedras foram trincadas.

Nesse dia, seus pais a reprenderam por ela esta dançando livremente, e a doutrinaram de como uma princesa deve se comportar, afinal, para eles o que defini a princesa é a escolha do seu príncipe. “Uma boa menina não fica na rua brincando, saltitando e gargalhando alto, o que vão pensar dela. Uma princesa não precisa ter audácia e coragem, essas qualidades, só são admiradas nos príncipes; Uma boa rainha só olha para o brilho da coroa do rei, e se esforça para não deixar seu brilho próprio ofuscar o do rei.

A rainha viu sua imagem refletida na coroa, e o que ela viu, estava longe de uma mulher frágil e limitada. E animadamente deu um pulo e abraçou a criança, e com o coração cheio de gratidão, começou a falar: Obrigada minha criança, você conseguiu, olhe para esta mulher que me tornei, por causa da sua força as pedras da nossa coroa só trincaram, mas não se quebraram. E como uma nuvem a imagem se desfez.

Tomada de uma indignação, a rainha começa a questionar: Como podemos enganar e roubar a luz de nossas meninas dessa maneira? Quantas vezes estive a frente do meu reino, quando o rei se ausentou? Quantas vezes fui a mediadora sábia nos conflitos? Carreguei o peso da gravidez, lidei com as mudanças do meu corpo, com coragem e resignação, e o rei por menos perdeu a paciência. Apertou a coroa contra o peito e decidiu, que em seu reino isso não seria mais permitido. O rei não define a rainha, ambos se definem individualmente.

Agora a rainha já sabia do porquê das pedras trincadas, mas, faltava a pedra do espaço vazio.

Então ela fechou seus olhos e começou a viajar por sua história, dos momentos inocentes e cheios de imaginação da sua infância, para as lembranças de sua adolescência de mudanças incríveis em seu corpo, mas, também incrivelmente castradora. Período em que para as meninas tudo era feio, errado e proibido. Moldando pouco a pouco a princesa ideal. A rainha se lembrou nitidamente, que enquanto seus colegas meninos viviam livres, sendo o que eles queriam ser, aprendendo a se defenderem, a definir limites e a conquistarem seu lugar. Ela era doutrinada que só princesas mal educadas agem como meninos. E pior, ficam para titias.

E finalmente, se lembrou de quando se tornou rainha. Uau, como ela estava feliz, finalmente ela se tornaria importante e seria reconhecida. E se esforçou para fazer tudo conforme a ensinaram e esperavam de uma boa rainha.

Se calou, quando queria falar; Ocultou sua dor, para cuidar da dor do outro; Foi magoada, mas, deixou para lá; Não xingou, não gritou, não esmurrou, afinal, rainhas não são reis.

E mais uma vez, a rainha tomada de indignação, começa a questionar: Como podem exigir que somente a rainha atenda as expectativas do casamento? Como ousam definir uma rainha pelo seu rei? Por que tudo que diz respeito a rainha é de interesse público, sua roupa, seu cabelo, seu tom de voz, seu sorriso, seus amigos, seu gosto?

A rainha sente sua coroa mais pesada e quando abre os olhos ver no lugar vazio uma pedra verde e intensamente brilhante. Nesse momento ela sente uma enorme vontade de gritar: EU SOU LIVRE PARA SER QUEM EU QUISER SER.SOU LIVRE PARA BRILHAR O QUANTO EU QUISER.SOU LIVRE PARA GARGALHAR NA ALTURA QUE EU QUISER.

A rainha soube naquela hora que recuperará a pedra da liberdade, que lhe foi roubada sutilmente, até ela acreditar que de fato seu único papel na sociedade era ser a rainha do rei. E quando o rei partiu, todas as suas crenças foram colocadas a prova.

A rainha contemplou por horas a sua coroa, e de repente, sentiu uma imensa gratidão pelo rei ter saído de sua vida, pois foi a partir disso que ela despertou para sua própria grandeza.

No decorrer dessa viagem solitária, ela teve oportunidade de conhecer e ressuscitar a mulher extraordinária sepultada em suas vísceras.

Se surpreendeu com sua própria dualidade: forte e frágil; meiga e valente; sensual e pudica; sábia e tola; histérica e silenciosa, enfim, ela concluiu: NADA CONTRA A COROA DO REI, MAS NÃO PERMITIREI QUE ROUBEM A MINHA.


Autora: Rosangela Pinto Oliveira – Simplesmente mulher.

26/8/2021

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