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  • Foto do escritorSilvana Santos

Metamorfose

Atualizado: 23 de mai. de 2022



A criança ao nascer é extremamente dependente de alguém, para comer, para se higienizar, para tudo!

Um ser extremamente vulnerável, uma folha em branco, que no primeiro momento receberá as informações do mundo através dos seus cuidadores.

Certo ou errado, ela não tem habilidades para discernir, ela simplesmente confia e vai.

Tudo é novo, o primeiro passeio, as roupinhas, as amizades, o verde são mais verde, todo cachorro é bonzinho, ninguém é mal, todo mundo é legal.

Não existem comparações, você não precisa provar nada para ninguém, simples assim, você com você mesma.

Gosto de comparar com a pureza dos animais, principalmente quando estão brincando, você já viu um gatinho brincando com uma bolinha feita de papel alumínio? É a Disney para eles, pulam, correm, rolam, o mundo para eles se resume naquela bolinha.

Conforme o tempo vai passando, essa criança começa a interagir com outras crianças, na rua, na escola e é tudo muito leve, as brincadeiras, os sorrisos, o estar junto de verdade, a alegria brota de uma forma natural, por conta de toda essa simplicidade.

Não existem pobres, ricos, pretos, brancos, ninguém está preocupado com o gênero de ninguém, ou se vamos brincar de carrinho ou de boneca, o que realmente importa é se divertir junto, sorrir junto, descobrir junto, e no final da brincadeira, voltamos para casa, para continuarmos a aventura lá.

Não é que esquecemos dos amiguinhos, ou não gostamos deles, a questão é que no nosso repertório não existe essa dependência, nós simplesmente vivemos por completo aquele dia, sem cobranças, sem disputas, apenas vivemos.

Eu me lembro de estar deitada com o meu pai e com os meus irmão em um colchão no chão, naquela hora eu senti uma alegria tão grande, ninguém falava nada, só assistia alguma coisa na televisão, para mim ali era como se fosse um cinema na sala vip.

Lembro também de uma piscina de plástico que meus pais enchiam nos finais de semana, eu passava horas brincando, com os meus irmãos ou sozinha mesmo.

Eu me sentia no mar, achava super fundo toda vez que mergulhava.

Até uma situação ruim, não tinha o peso que tem hoje, acredito que porque eu me importava mais com aquilo que me deixava feliz.

Mas aí vem a pergunta, por que passamos a nos importar se o outro tem mais que eu? Se é mais pobre, ou mais rico? Se é melhor? Quando perdemos essa naturalidade? Essa simplicidade?

Tenho uma teoria, sabe aquela folha em branco que citei no início do texto? Então, acredito que ao começarmos a nos importar com essas situações que anteriormente não existiam para nós é quando o outro começa a viver por nós.

Como assim? Vou te dar exemplos:

Quando uma criança joga areia no olho da outra no parquinho e a mãe furiosa a tira de lá e fica esbravejando contra aquela inocente criança?

Ou quando aquela criança que recebeu uma informação em casa que ela não pode emprestar seus brinquedos, ou a sua borracha, porque aquela criança “feia” e “pobre” vai destruir?

E tantos outros exemplos, aquela criança pura, ingênua, que desconhece a maldade do outro, que confia em todo mundo, que a única preocupação dela é sorrir e viver aquele dia intensamente, vai ficando para trás.

Sei que crescer é um processo natural, só que é na infância que recebemos os estímulos que irão moldar o adulto que seremos.

Outros sentimentos não tão puros passam a se sobrepor aqueles, aquilo que não importava passa a importar, ela passa a se preocupar muito mais com o bem-estar do outro, uma ideia de que ela precisa fazer parte de um grupo para ser aceita, para se proteger.

E se pararmos para ler a história dos nossos antepassados pré-históricos era bem assim mesmo, uníamos a grupos para ficarmos mais fortes e nos protegermos dos predadores, lutávamos pelo nosso território para nos mantermos vivos. E hoje? Por que ainda precisamos desses grupos para nos sentirmos seguros ou aceitos?

Não é que estamos errados ao querermos estar inseridos em grupos, o ser humano é um ser social, ele precisa viver interagindo com outras pessoas, principalmente aquelas que temos mais afinidades.

O problema é que vemos pessoas se envolvendo com outras pessoas para não ficar sozinhas, por medo de serem criticadas, de serem tachadas, estereotipadas, relações líquidas e superficiais.

Ao estarmos em casa encontramos pessoas que só estão ali de corpo, mas a cabeça está sabe lá Deus aonde. Nos sentimos sozinhos da mesma forma.

Nos desconectamos de nós mesmos, da nossa essência.

Se sei que sou uma pessoa de caráter, que meu nariz é torto, mas gosto dele assim mesmo, que meu corpo tem cicatrizes, mas aceito todas elas por respeitar a minha história, que gosto de se bem tratada, respeitada, que aceito o outro sem criar expectativas, já que não preciso delas, me envolvo com o outro por que quero, porque admiro aquela pessoa. Por que então o outro me afeta tanto?

Exatamente por não acreditarmos em nós, a opinião do outro vale muito mais, ao ponto de me fazer sentir inferior em relação ao outro.

Carregamos em nós o peso do nosso processo de aprendizado, ou seja, das nossas interações, se fomos criados por cuidadores que se preocuparam com a nossa saúde mental e física, hoje somos adultos bem resolvidos, conseguimos andar com nossas pernas, tomar nossas decisões, mas se fomos negligenciados, passamos grande parte de nossas vidas aprendendo com a experiência dos outros, delegando aos outros o que seria dever nosso cuidar.

Nos tornamos adultos inseguros, conheço milhares de pessoas com um potencial enorme, mas não consegue acessar, mulheres maravilhosas que se envolvem com homens que as tratam como bonecas de fantoche.

Em alguns elas até tentam arriscar algo, mas sempre esperando a validação do outro, como isso não ocorre ela se deixa de lado e continua sua vida em função de todos, menos dela.

Já vi mulheres passarem quase que uma década a espera daquele parceiro que a trocou por outra, a vida dela passa a girar em torno dele e da parceira atual.

Um sofrimento sem fim, um tempo perdido, já que ela poderia utilizar esse tempo para ela, com certeza a vida teria sido bem mais leve.

Mulheres que passam a vida inteira ao lado de uma pessoa que ela não gosta, apenas por não conseguir sair, por conta das inseguranças, das cobranças internas e tantos outros motivos.

Pessoas vivendo uma vida que odeiam mas permanecem ali paralisadas, conformadas e frustradas.

Conheci uma pessoa que me disse que passava o dia inteiro olhando para janela, para ela , um dia algo aconteceria e tudo como uma mágica mudaria.

Dias se passavam, a sua única companhia era aquela janela e os seus sonhos, que logo eram interrompidos pela sua realidade dura.

Até que um problema financeiro grave na família a obrigou a sair e arrumar um emprego, mal sabia ela que aquele emprego seria a mágica que ela tanto aguardava.

Começou a trabalhar fora, descobriu que tinha direitos, que tinha voz, que ela não estava presa.

Isso foi literalmente libertador, hoje ela vive uma vida tranquila, em paz, se descobrindo um pouquinho mais a cada dia, o fantasma do passado até insiste em aparecer, mas deixou de ter algemas, ela consegue lidar e seguir adiante.

E ouvindo várias histórias como essa que cheguei a seguinte conclusão:

O que nos aprisiona é a dependência, seja a financeira, a da aprovação, do afeto, do passado, do futuro, a do outro, quando esperamos que alguém faça por nós.

Criamos a crença que não podemos ficar sozinhos, eu não me refiro de ficarmos sem ninguém no mundo, me refiro a nós mesmos.

Essa bendita dependência, ela vem acompanhada do sentimento de falta, no dicionário um dos significados dessa palavra é a necessidade de proteção.

Percebe que estamos em busca daquele bendito colo que não recebemos lá trás?

Só que não somos os únicos nessa estrada, normalmente aqueles que “dependemos” também estão.

Por isso que o caos acontece, enquanto esse outro vai à luta em busca desses colos, ficamos ali, aguardando, esperando, com uma falsa sensação de proteção, mas na verdade o que todos nós buscamos está dentro de nós, ninguém nunca vai conseguir suprir essa sua falta, porque ela é sua, a responsabilidade é sua.

Bom, com isso chegamos ao início deste texto, lá trás quando estávamos começando a viver, quando terminávamos de brincar com o coleguinha e ao voltarmos para casa a aventura continuava, mas agora era somente nós.

Não sentíamos a dependência do coleguinha, nem mensurávamos o quanto necessitávamos do cuidado de um cuidador.

Terminávamos o dia sonhando com o próximo, com as brincadeiras, curiosos, com sede de viver intensamente aquele novo dia.

E hoje? Como combater essas dependências? Como vamos conseguir sair desse ciclo e começarmos um novo?

Acredito que o primeiro é exatamente o de voltarmos o olhar para nós, de verdade.

Faça uma brincadeira com você mesma, experimente, no início é um pouco desconfortável, mas depois melhora:

Fique diante de um espelho e converse com você, procure voltar lá trás, tente lembrar daquela época em que a sua única preocupação era se você ia poder sair para brincar, tente lembrar das brincadeiras, dos amiguinhos, dos momentos em família, fique bastante tempo aí, quanto mais lembranças melhor.

Só procure evitar aqueles traumas mais profundos, deixe essa parte para o adulto.

Vá falando em voz alta, reserve bastante tempo para essa dinâmica, depois observe na adulta que você se transformou, entenda que tudo que você fez durante sua vida toda, foi o que você deu conta.

Seja gentil consigo mesma, já temos gente demais que nos critica, não se culpe pelo que não fez, sempre falo que se voltasse no tempo eu faria a mesma coisa, afinal era o que eu sabia fazer naquela época, eu não tinha a experiência que tenho hoje.

Depois de um bom tempo, pergunte a si mesma, e aí? E sua vida hoje? Como ela está? Olhe em volta, Como você está se sentindo? Sabia que hoje você é o adulto? Sim, lembra dos seus pais, agora a bola está com você, ou você delegou essa responsabilidade para alguém e continua se sentindo presa?

Analise com calma as verdadeiras razões que a faz se sentir assim.

Mas no final acesse a criança interior para uma brincadeira (o ideal seria acessar a criança interior somente nesses momentos, criatividade, leveza e brincadeiras, uma criança não deve ser responsável por emoções de pessoas adultas, sabe quando você não confia em si mesma? Então, é a criança que está no comando) Vamos brincar?

Comece com o "e se... como seria"? Brinque com a sua imaginação, lembre-se que esse território é seu, ninguém consegue invadir, só se você autorizar.

Pense em milhares de possibilidades e depois volte para a realidade. Procure repetir essa dinâmica algumas vezes, ela te dará frutos.

Durante todo o meu processo como terapeuta descobri que não existe uma receita de bolo que basta seguirmos para dar certo.

Cada pessoa é única, o que impacta para um é diferente para outro, por isso as comparações são injustas, cada pessoa recebeu um estímulo próprio.

O que é óbvio para você pode não ser para o outro.

Não julgue alguém pela casca, nem imaginamos a luta que aquela pessoa está traçando naquele momento.

Não pense que a sua receita servirá para ela, deu certo para você, no seu contexto de vida. Seja gentil, escute mais, vá sempre pelo caminho mais simples é lá que você encontra a verdadeira felicidade.


Silvana Santos





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